Bistrô Rivadávia


Sentido
31 31UTC maio 31UTC 2011, 4:44 am
Filed under: Prosas do Chef

O sentido da vida é não ter sentido algum, como o vento que corre em direção nenhuma e deixa um rastro de prazer no rosto onde sopra sereno. Perpassa mundos, move barcos, moinhos… mas ninguém doma, pega ou controla. É como o descampado onde se pode correr infinitamente pela paisagem, um dia se cansa e ofega, perde-se o fôlego de felicidade, mesmo chovendo nos olhos.



No leito
28 28UTC maio 28UTC 2011, 4:15 am
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Para ler ao som de State of Grace de Paul Schwartz – Play abaixo:

Levantou-se do leito, algo a incomodara.  Não eram as dores, que de tão intensas já acostumara seu organismo aquelas torturas involuntárias. Sentia-se bem como se todas as  suas dores houvessem escapado, as de corpo e mente. Não mais se sentira culpada pela negligencia dos tratamentos químicos e um sentimento eufórico tomou toda sua consciência. Andou devagar até o banheiro mas nem se reparou no espelho, mirou os olhos  no sanitário e perdeu repentinamente as necessidades. Foi até o corredor frio do hospital que parecia vazio aos seus sons, mas deparou-se com várias pessoas de um lado para outro em ritmo descompassados e olhares questionadores, assustou—se com a cena que vira  e imaginou alguma pane coletiva na tecnologia hospitalar. Retornou e deu-se  conta que sua filha encontrava-se ali num cochilo despercebido de quem esforça-se para manter-se acordado,  reparou por um instante sua beleza jovial estampada no rosto da jovem e quis abraçá-la como se de alguma forma pudesse recuperar sua juventude e todos os gozos da saúde que esta carrega. Sentou-se na cama e percebeu algo estranho, alguém tomara seu leito. Espantou-se, tentou entrar, acordar, mas seu corpo já estava fechado.



Receita do Chef: BOLO CAPPUCCINO
3 03UTC maio 03UTC 2011, 5:04 am
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Ansiedade, taí um problema que estou longe de conseguir resolver ou mesmo dominar. Qualquer tempo ocioso pra mim já se torna uma tortura e um pretexto para aplicar um dos maiores prazeres da vida: comer! Mas antes de comer. cozinhar! É sempre um vitória quando as roupas voltam a servir, o rosto afinar e a silhueta dar aquela diminuida, o problema está quando a ansiedade ativa o paladar e começa a recusar os orgânicos, sojas, grãos e tudo que há de saudável nesse mundo.

Pois bem, num destes ataques de ansiedade master nasceu uma iguaria que eu TINHA que partilhar com vocês. Fiz no impulso, comi com culpa e agora tento compartilhar para que o peso da consciência e da massa corporal também estejam convosco! Amém!

Para os apaixonados por café assim como eu, cuidado, ele pode ser arrasador e viciante! Criei sem expectativa nenhuma, e jurava que não ia prestar. Me enganei total, a funcionária aqui de casa quando chegou hoje logo devorou uns pedaços e elogiou, levei para o escritório para aprovação e foi super bem aceito! rs

Resolvi compartilhar!

BOLO CAPUCCINO

Para a massa você vai precisar de:

02 1/2 xícaras  de farinha de trigo

1 1/2 açúcar

04 ovos

02 colheres de sopa de óleo

01 colher de margarina

02 colheres de chá de pó de café

1/2 xícara de café concentrado (passe o café com pouca água e umas 4 colheres de pó)

01 colher de sopa de fermento em pó (o famoso Pó Royal)

Para a cobertura (e se preferir cortar ao meio dobre a massa e aplique como recheio)

01 lata de leite condensado

01 sachê de Cappuccino 3 Corações Tradicional

01 colher de sobremesa de margarina

01 colher de sopa de leite

A MASSA:

Coloque na batedeira a farinha de trigo, o açúcar, o pó de café e os ovos. Bata até se tornar homogêneo. Coloque o óleo e a margarina, continue batendo até que a massa se torne brilhante e mais “liquida”. Coloque o café concentrado e misture bem, se a massa ficar um pouco liquida demais coloque um pouco mais de farinha até perceber o ponto ideal em que ela esteja mais consistente, mas não muito, a massa deverá ficar “amarronzada” da cor de um cappucino . Por último coloque o pó royal mas não misture com a batedeira e sim com uma colher de pau, cuide para que o fermento se dissolva na massa e não fique em pequenas pelotinhas.

Pré aqueça o forno, unte um tabuleiro médio com margarina e polvilhe um pouco de  farinha. Despeje a massa e coloque pra assar em 120º por cerca de 30 minutos.

COBERTURA

Despeje em uma panela a lata de leite condensado, coloque a margarina e misture com uma colher de pau até que ela se dissolva. Quando já estiver meio aquecido despeje o conteúdo do sachê de Cappuccino e misture bem, sem parar, passando a colher no fundo da panela para não agarrar. Misture até borbulhar, você vai perceber que uma espécie de creme vai se formar, diferente de um brigadeiro ou algo do genêro, a mistura ficará mais pastosa como uma espuma. Deixe cozinhar sem parar de mexer até ver que está no ponto: bem cozida e meio “espumada”, cuide para que o fundo não queime. Deixe esfriar, você vai perceber que ao esfriar a cobertura adquire uma semelhança ao brigadeiro, quando isso acontecer coloque o leite, reaqueça em fogo baixo só até perceber que a mistura ficou mais pastosa, mole porém consistente.

Retira a massa do forno, quando estiver bem morena (diferente de queimada rs), fure o bolo com um garfo e espalhe a cobertura com a colher de pau de modo que fique uniforme por todo o bolo.

O aroma de cappuccino se tornará irresistível!

Espere esfriar um pouco e DEVORE COM MODERAÇÃO!!!!

Não deixa de me contar aqui nos comentários como ficou!!!

Eu mesmo quem criei a receita, se quiser acrescentar algo ou mesmo modificar, conta também o que fez e o resultado!




A canção perdida
29 29UTC março 29UTC 2011, 5:28 am
Filed under: Prosas do Chef

É noite e uma mulher grita em mim. Um mulherão forte, consumida de orgulho de si mesma e farta do que bate em sua porta. A canção nasceu no banheiro, berço da mais fina música produzida na sociedade. Está aqui, concreta e ecoando pelos ladrilhos. A mulher canta o beijo desejado pela boca de maldizeres, o afago que outra se trajava de violência. O bater na porta de um passado bêbado que ela não se permitia possuir mais.

Sei que na canção também há uma praça, promessas e negações. Ela está sendo tocada agora, posso ouvir, posso senti-la vibrando em mim. Quem sabe outro banho e… Não adianta, não vou guardá-la. Talvez se houvesse alguém escrevendo enquanto solfejo ela nasceria. Estranho como posso ouvi-la. Só há uma conclusão, ela já existe. Não é canção, é dor de mulher sofrida espalhada por aí.  Milhares, em que a canção também se perde. E nem festival é.

 



Monólogo de Orfeu
24 24UTC fevereiro 24UTC 2011, 11:15 pm
Filed under: Em Cartaz no Bistrô, Prosas do Chef

Vininha fala por mim, Bethânia me dá voz:

Monólogo de Orfeu

Vinicius de Moraes

Mulher mais adorada!
Agora que não estás,
deixa que rompa o meu peito em soluços
Te enrustiste em minha vida,
e cada hora que passa
É mais por que te amar
a hora derrama o seu óleo de amor em mim, amada.

E sabes de uma coisa?
Cada vez que o sofrimento vem,
essa vontade de estar perto, se longe
ou estar mais perto se perto
Que é que eu sei?
Este sentir-se fraco,
o peito extravasado
o mel correndo,
essa incapacidade de me sentir mais eu, Orfeu;
Tudo isso que é bem capaz
de confundir o espírito de um homem.

Nada disso tem importância
Quando tu chegas com essa charla antiga,
esse contentamento, esse corpo
E me dizes essas coisas
que me dão essa força, esse orgulho de rei.

Ah, minha Eurídice
Meu verso, meu silêncio, minha música.
Nunca fujas de mim.
Sem ti, sou nada.
Sou coisa sem razão, jogada, sou pedra rolada.
Orfeu menos Eurídice: coisa incompreensível!
A existência sem ti é como olhar para um relógio
Só com o ponteiro dos minutos.
Tu és a hora, és o que dá sentido
E direção ao tempo,
minha amiga mais querida!

Qual mãe, qual pai, qual nada!
A beleza da vida és tu, amada
Milhões amada! Ah! Criatura!
Quem poderia pensar que Orfeu,
Orfeu cujo violão é a vida da cidade
E cuja fala, como o vento à flor
Despetala as mulheres -
que ele, Orfeu,
Ficasse assim rendido aos teus encantos?

Mulata, pele escura, dente branco
Vai teu caminho
que eu vou te seguindo no pensamento
e aqui me deixo rente quando voltares,
pela lua cheia
Para os braços sem fim do teu amigo

Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que estarei contigo.

 



A velha que vendia
12 12UTC fevereiro 12UTC 2011, 2:10 am
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Pessoas pra lá e pra cá… Sábado pela manhã, o ponto de ônibus lotado de pessoas e caminhos diferentes. Aquela voz fracamente forte chamou-me atenção. Não era uma voz jovem, uma tonalidade carregada de tempo e vivência:  “Bom-bom de morango, delícia, bom-bom…”

Ali estava aquela velha senhora  falando sozinha na multidão, recebida por atenções dispersas. Seu olhar implorava o preço do doce.
Para alguns sorrisos, para outros esperança de um trocado, tristeza… A cesta cheia demonstrava e justificava seu olhar inquieto Como jornalista pensei numa ótima pauta. Um meio de comunicação qualquer não sustentaria toda a sensibilidade de sua idade causada em mim.

Com a idade aparentada ela não vendia bom-bons, vendia esperança… “Bom-bom, delicioso, bom-bom”. Doce esperança, amarga vida.



Afinal…
26 26UTC janeiro 26UTC 2011, 12:26 am
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O momento na qual estou era pra ser apenas meu, momento apenas de sentir, sentir o momento por todos meus sentidos e imergir em mim mesmo. As velas se esgotam nos cantos, a iluminação mais baixa me descansa. o incenso inalado me provoca a calma necessária do ambiente e a música funciona como estímulo de algo que ainda não sei descrever, nem pretendo.  É quando recorro aos gênios, e digo gênios porque assim os são, e nada mais do que isso para não dizer palavras de baixo calão daqueles que me inquietam e me ativam a circulação sem pudor.  O momento que ainda é meu é intenso demais e não posso me privar de revelar aqueles que se interessam pelos meus escritos bestas num bistrô ilusório, é demais para mim, sufocante. Chega, não quero dizer muito, sinta você mesmo, sinta-se arrebatado com simples letras reunidas que se tornam muito mais que sentimentos, uma explosão silênciosa e vasta:

Afinal

Álvaro de Campos

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.  

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidade eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo,
E fora d’Ele há só Ele, e Tudo para Ele é pouco.

Cada alma é uma escada para Deus,
Cada alma é um corredor-Universo para Deus,
Cada alma é um rio correndo por margens de Externo
Para Deus e em Deus com um sussurro soturno.

Sursum corda!  Erguei as almas!  Toda a Matéria é Espírito,

Porque Matéria e Espírito são apenas nomes confusos
Dados à grande sombra que ensopa o Exterior em sonho
E funde em Noite e Mistério o Universo Excessivo!
Sursum corda!  Na noite acordo, o silêncio é grande,
As coisas, de braços cruzados sobre o peito, reparam

Com uma tristeza nobre para os meus olhos abertos
Que as vê como vagos vultos noturnos na noite negra.
Sursum corda!  Acordo na noite e sinto-me diverso.
Todo o Mundo com a sua forma visível do costume
Jaz no fundo dum poço e faz um ruído confuso,

Escuto-o, e no meu coração um grande pasmo soluça.

Sursum corda! ó Terra, jardim suspenso, berço
Que embala a Alma dispersa da humanidade sucessiva!
Mãe verde e florida todos os anos recente,
Todos os anos vernal, estival, outonal, hiemal,
Todos os anos celebrando às mancheias as festas de Adônis
Num rito anterior a todas as significações,
Num grande culto em tumulto pelas montanhas e os vales!
Grande coração pulsando no peito nu dos vulcões,
Grande voz acordando em cataratas e mares,
Grande bacante ébria do Movimento e da Mudança,
Em cio de vegetação e florescência rompendo
Teu próprio corpo de terra e rochas, teu corpo submisso
A tua própria vontade transtornadora e eterna!
Mãe carinhosa e unânime dos ventos, dos mares, dos prados,
Vertiginosa mãe dos vendavais e ciclones,
Mãe caprichosa que faz vegetar e secar,
Que perturba as próprias estações e confunde
Num beijo imaterial os sóis e as chuvas e os ventos!

Sursum corda!  Reparo para ti e todo eu sou um hino!
Tudo em mim como um satélite da tua dinâmica intima
Volteia serpenteando, ficando como um anel
Nevoento, de sensações reminescidas e vagas,
Em torno ao teu vulto interno, túrgido e fervoroso.
Ocupa de toda a tua força e de todo o teu poder quente
Meu coração a ti aberto!
Como uma espada traspassando meu ser erguido e extático,
Intersecciona com meu sangue, com a minha pele e os meus nervos,
Teu movimento contínuo, contíguo a ti própria sempre,

Sou um monte confuso de forças cheias de infinito
Tendendo em todas as direções para todos os lados do espaço,
A Vida, essa coisa enorme, é que prende tudo e tudo une
E faz com que todas as forças que raivam dentro de mim
Não passem de mim, nem quebrem meu ser, não partam meu corpo,
Não me arremessem, como uma bomba de Espírito que estoira
Em sangue e carne e alma espiritualizados para entre as estrelas,
Para além dos sóis de outros sistemas e dos astros remotos.

Tudo o que há dentro de mim tende a voltar a ser tudo.
Tudo o que há dentro de mim tende a despejar-me no chão,
No vasto chão supremo que não está em cima nem embaixo
Mas sob as estrelas e os sóis, sob as almas e os corpos
Por uma oblíqua posse dos nossos sentidos intelectuais.

Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo e para cima,
Ascendo para todos os lados ao mesmo tempo, sou um globo
De chamas explosivas buscando Deus e queimando
A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica,
A minha inteligência limitadora e gelada.

Sou uma grande máquina movida por grandes correias
De que só vejo a parte que pega nos meus tambores,
O resto vai para além dos astros, passa para além dos sóis,
E nunca parece chegar ao tambor donde parte …

Meu corpo é um centro dum volante estupendo e infinito
Em marcha sempre vertiginosamente em torno de si,
Cruzando-se em todas as direções com outros volantes,
Que se entrepenetram e misturam, porque isto não é no espaço
Mas não sei onde espacial de uma outra maneira-Deus.

Dentro de mim estão presos e atados ao chao
Todos os movimentos que compõem o universo,
A fúria minuciosa e dos átomos,
A fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos,
A espuma furiosa de todos os rios, que se precipitam,

A chuva com pedras atiradas de catapultas
De enormes exércitos de anões escondidos no céu.

Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio
De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh’alma.
Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia, sacode,
Freme, treme, espuma, venta, viola, explode,
Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge,
Sê com todo o meu corpo todo o universo e a vida,
Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes,
Risca com toda a minha alma todos os relâmpagos e fogos,
Sobrevive-me em minha vida em todas as direções!



Minha cabeça dói…
19 19UTC janeiro 19UTC 2011, 4:06 am
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Minha cabeça dói! Antes fosse a dor leve de um incomodo momentâneo, ou mesmo psicopatologias mal resolvidas trajadas de dor. Não, é a dor intensa, cravada e desnorteante. Não adianta me questionar a origem, enxaqueca hereditária? Aceitável. Alergia a lactose? Provável. Stress? Não me permito. Será? Ui! A dor aumenta e é melhor não questionar, apenas aceitar o fato que minha cabeça dói! Dói muito, daquelas dores que o menor movimento se torna quase um rodopio triunfal, que qualquer som se torna uma orquestra de sons insuportáveis aos ouvidos doloridos em seus centros.

O fato que quanto maior a dor, menor a paciência se encontra. Em dias como este que se manifestam os leões internos rugindo ferozes e incomodados. Irritação permanente. Noite de sono é luxo para dor. O pensamento se torna algo preguiçoso. Boa essa tal de dor, me poupa de pensar, de ser simpático,  de dormir,  me permito ser incomodado como nunca.

Irrita-me, e uma irritação em um erre bem arranhado na garganta. A responsabilidade também me dói a cabeça, a humanidade me dói a cabeça.  Ser grande me dói a cabeça. Os outros, estes também me doem a cabeça e eles que me perdoem porque minha cabeça dói. Estou me dando um sinal, aquela parte mim que não conheço e sempre reclama nos momentos indevidos, uma parte que me pertence, mas não sei do que se trata e conheço apenas de nome. A dor me revela, tenta me apresentar forçadamente às limitações do corpo mediamente saudável.

Rezam os ventos que dor é sinal do organismo onde vai algo errado, se entendo melhor, eu  sinalizando algo pra mim mesmo. De duas uma, ou ela me mostra que algo vai mal ou tudo vai muito bem e nada pode ir bem demais. Todas as dores de cabeça que nunca tive mas que sempre me rondam se uniram. Neste instante me limito a qualquer reflexão, pensamento, questionamentos ou o que preferir. Não adianta, minha cabeça dói!



Novo Par
16 16UTC janeiro 16UTC 2011, 11:38 pm
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O dia hoje me inspirou ao samba quieto, dolorido, acho que por ser domingo. Quase não escrevo letras de música, também não sei se isso é uma letra, só sei que é um samba. Não mais que um samba.

 

Novo Par

 

Faz , meu coração de lembranças

De um outro jeito capaz de assim dizer,

Que foi dela o medo de mim se arrepender

Guardei em segredo, jurei  por nunca mais

A entrega é a dor de quem prefere o meio amor

Ao se sentir sozinho em paz.

 

E foi assim que ela abusou,

Na avenida passando, cantando  o meu samba vão.

Trajava minha fantasia em mulher,

Entregou meus pontos para outra escola,

Fez da sua ala minha rendição.

 

Não será a tristeza maior do meu samba,

a alegoria do seu riso junto ao novo par,

nem o brilho em sombra do seu paetê.

É o canto deste coração, esquecido e pisado

Pela  sandália daquela mulher.

 

 

 



A Descoberta dos Mundos
13 13UTC janeiro 13UTC 2011, 3:26 am
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Para ler ouvindo algo de Paul Schwartz

Meu cálice de vinho noturno, a calma nos ouvidos e minhas mãos tateiam a “A Descoberta do Mundo” de Lispector. A cada página um sentimento de vivacidade me toma  e percorre todo meu corpo,  um coração pujante e uma alegria única de descobrir o mundo da autora. Descubro o mundo dela!

As vezes me perco com as ideias da criação de um universo, de um mundo. Um mundo em papel mas que anseia pela realização de uma veracidade tomada por experiências concretas. O quarto onde me encontro, espaçoso, amplo, com minhas obras e devoções, um espaço sagrado para o criar e consumir. Um lounge onde possa ser compartilhado o vinho e a champanhe, uma sofisticação aos ouvidos, aos olhos a á alma. Um momento meu, um lugar de poucos. Uma vista contemplativa perdida na imensidão de águas claras de uma Polinésia imaginariamente real. Um crepúsculo constante, uma alegria permanente acompanhada da melancolia sombria de uma alma insatisfeita. Um eu perdido em si próprio extremamente consumível, mas para si mesmo e para pouquíssimos eleitos.

A individualidade me fascina, o ser misterioso dotado de uma elegância secreta me instiga. Pode ser este meu mundo registrado na celulose, como também tantos outros que passam por esta inquietação noturna. Quero construir palácios medievais, dançar na roda de faunos, caminhar  calmamente no caminho de Santiago ou mesmo queimar minhas retinas com o branco da neve. Quantos mundos possíveis e impossíveis.

Tenho medo de criar meu mundo, viver por ele, nele e apenas por mim. Não dou conta, não me pertence, embora ele se abriga no mais intimo e secreto. Não é para ser compreendido. Prefiro ir descobrindo este, que já enorme o suficiente e contraditoriamente pequeno.  Vou adentrando  as páginas de Lispector. Posso adaptar, ao meu intimo, ao que vivo e ao que me veem. Quando estou aqui, no meu cômodo decorado para me satisfazer,  sou este ranzinza, egocêntrico e estupidamente exigente . Se é sempre? Não sei, também não  me importa. Ele existe!

Assim que as páginas vão se passando, a música se elevando nos ouvidos, os pensamentos começam a incomodar. Quero bailes suntuosos nos salões de Versalhes, seres interessantes, mas que poderiam ser mudos frente às bestialidades, quero seres com voz para proclamar seus ideais! Quero aquilo que é controverso, quero passado, presente e futuro. Em mim os vivo. Faço-os viver.  É extremamente necessário para minha sanidade!

 




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